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O PODER DA SOLITUDE, ADOTADA CONSCIENTEMENTE

24 de Junho, 2020

Sempre gostei de estar sozinha. Aprecio uma boa sessão de conversa com os amigos, mas no final do dia, não há nada como o rematar na própria companhia, o momento ideal para recarregar as energias. Não é de hoje que o sei. Dificilmente, conseguiria apontar para o instante exato no qual comecei a praticar a solitude, mas acredito que as razões tenham despontado no primeiro ciclo. Quando ganhei uma certa consciência de que muitas pessoas não são, de todo, nossas amigas, e abusam da nossa boa vontade para se sentirem superiores.

Longos foram os anos em que tive o pensamento formatado para renderizar a vida desta maneira, como um todo.

Daí que se tivesse de me resumir a uma só expressão, para definir o tipo de pessoa que eu era, lobo solitário adequar-se-ia na perfeição. Jamais me cansarei de enaltecer o meu secundário, que representou um dos melhores desabrochares, para mim. Foi naquela época em que estreei amizades que duram até hoje, uma época em que me permiti ao auto-descobrimento. Ser solitária, portanto, transformou-se em solitude, embora só o saiba definir como tal, presentemente.

2020 está a acontecer e escuso de enumerar a fase da qual nos estamos a despojar. Uns com mais calma, outros com uma sede incontrolável. De igual modo, não será a minha primeira, nem tão pouco, última menção do assunto. Contudo, e dadas outras circunstâncias, para mim, a solitude simboliza liberdade. Liberdade em estipular limites, ultrapassá-los e colocar a hipótese de eles nem sequer existirem. A solitude não se trata, somente, de um aproveitamento do tempo para descansarmos a alma.

Claramente, não deixa de ser uma extensão, porém, representa muito mais do que nos dizem, ou vemos por aí. Nos momentos de solitude, somos capazes de crescer. De assimilar o mundo à nossa volta e aquele que guardamos em nós. No silêncio que reverbera no nosso coração, somos capazes de escutar o nosso inconsciente, os nossos sonhos, os nossos medos. Permitimo-nos, então, a explorar o nosso centro de gravidade, expandindo-o nas atividades que nos acrescentam.

A solitude é, muitas das vezes, encarada como uma coisa má…

Ou rotulam-nos de anti-sociais, introvertidos, de poucas palavras; ou nem sequer se dão ao trabalho de experimentar compreender os motivos que nos inspiram a querer e gostar de estarmos sozinhos. É um autêntico caos, se admitirmos esta inclinação para a nossa bolha; a tendência é a de nos acusarem de depressão, quando na realidade, esta última merece mais atenção do que o entendimento raso que conjecutram dela. Amantes da solitude não são, necessariamente, pessoas depressivas. Ou ansiosas. Ou anti-sociais.

Amantes da solitude são aqueles que reconhecem em si a potencialidade de mudar as circunstâncias da sua vida, se se permitirem a interpretá-las, no espaço ao qual se dedicam, de modo consciente. A solitude é um gesto que nos abre portas; através dos seus olhos, dotar-nos-emos da capacidade de escolher sem errar em falso, e, se assim o for, pelo menos saberemos de que existe essa possibilidade. Não vou negar as minhas apreciações em relação a convivências barulhentas, à partilha de abraços e sorrisos, aos passeios da meia-noite.

Doravante, não as torno o centro da minha existência, exatamente, por estar consciente de que, ao final do dia, serei eu comigo mesma.

E isso implica, consequentemente, estar aberta à possibilidade de que haverão dias em que terei de dizer não a convites, por querer respeitar os meus anseios em querer estar sozinha. Isso implica não gerar dependências emocionais e que, por conseguinte, ao serem alimentadas, só nos magoam. Solitude é sinónimo de auto-conhecimento, e eu acredito na importância de começarmos a partilhar o lado positivo que muitos querem esconder, devido a ene fatores sociais.

Não há mal em gostarmos de estar sozinhos. Sem dúvida que não há. Uma das melhores curas passa por abrirmos o nosso coração num diálogo entre nós mesmos, sem recorrer a filtros. E aqueles que, numa eventualidade, nos privarem de conquistar esse terreno íntimo, terão de ser os primeiros a ficar ao abandono da nossa atenção. Pois, possivelmente, são os primeiros a exigir de nós o que não nos sabemos entregar, proporcionando discórdias desnecessárias.

Há limites. Há, com efeito, limites para tudo, e eu não estou para aqui a desencorajar conexões travadas com o exterior. Pelo contrário. Apenas tenho dedicado muito dos meus dias a medir os aprendizados dos últimos tempos, e um deles é aprender a aceitar este meu gosto de estar sozinha. Com uma certa lucidez e sem ter de me justificar. Já não entro em confrontos comigo mesma; aceito-me tal como sou e raramente deixo de me abraçar, seja por que razão for.

E tudo isto devo à solitude, que me guiou em direção à pessoa que, outrora, almejei conquistar. ♥

PUBLICAÇÃO INSPIRADA NO ARTIGO DO SHIFTER
“Aprendam a estar sozinhos”: o conselho de Andrei Tarkovsky para os jovens”

  • Reply
    Marisa Vitoriano
    25 de Junho, 2020 at 8:03

    Sempre tive muita tendência a preferir estar sozinha. E nem sempre isso foi (é) visto da melhor forma pelos outros. A verdade é que estar sozinho é ótimo, para nos conhecermos, para pensarmos, para descansarmos, para tanta coisa… e não impede de termos amizades boas nem de estarmos em contacto com os outros. Apenas não o fazemos sempre. Até porque a relação que mais temos de cultivar é a nossa própria companhia, porque é connosco mesmos que passamos toda a vida.

    • Reply
      Carolayne
      3 de Julho, 2020 at 12:07

      Não retiro, nem acrescento nada! 🙌🏾

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    17 de Setembro, 2020 at 13:49

    […] torrada. Por outro lado, reclusa aos meus pensamentos e desejos, palpita-se-me, então, um outro modo de praticar a solitude. Estou, desde que a vida se transfigurou para todos nós, a exercitar diversos modos de estar […]

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