NEGRITUDE PESSOAL

O Poder da Representatividade, numa Simples Folha

17 de Março, 2021

Ainda estou a ler “Americanah”. Aliás, é por ainda o ler que me apercebo do quão desconectada cresci da minha realidade. A minha realidade negra. Este é o primeiro livro com o qual me conecto, sem sentir que algo está errado. Não sinto a necessidade de me desenquadrar, devido à culpa por não ser exatamente como a personagem principal.

Conecto-me de tal forma com os relatos da Ifemelu, que não preciso de simular emoções que nunca senti. Com efeito, torna-se difícil de não convergir os desafios do nosso dia-a-dia. E sentir a necessidade de o registar, em pleno século XXI, é ainda mais impressionante! Além de ser um livro gigante, é daqueles que, sem dúvida, merece uma degustação cuidada.

Os assuntos que a Chimamanda aborda clamam por uma reflexão ajuizada e consciente, sobretudo por continuarem a ser desprezados. Duvido que ela tenha escrito “Americanah” do ar, baseando-se nas histórias de outrem. Aposto grande parte das minhas plantas em como muitas situações revelam o que ela mesma experimentou na pele.

Devido à sua pele. Por conta do seu cabelo e sotaque.

Quando, em 2013, ouvi sobre esta obra, foi como que uma previsão da sua importância para a minha desconstrução e (re)descoberta enquanto mulher negra. Como se eu me estivesse a encarar pela primeira vez ao espelho, ajuda-me a clarificar momentos que nunca foram vingados.

Momentos em que escolhi calar-me para não parecer inconveniente. Ocasiões nas quais me mantive quieta, insegura, desprotegida… Sem ter quem compreendesse a responsabilidade de se ser negra. Uma responsabilidade que, por longos séculos, nunca se debateu. Que nos incutem sem qualquer manual de instruções.

Refiro-me às etiquetas do quotidiano, para não sermos julgados injustamente. Ao suposto destino de não vencermos na vida. Às histórias que poderemos não viver, dado que não temos perfil para. Ao desconforto pela falta de representatividade. A responsabilidade de assumirmos um problema que nem fomos nós que criámos…

“Americanah”, entre tantas outras obras de arte, é uma peça fundamental para uma comunidade que precisa de escutar que merece conquistar mais do que lhes é prometido…

Tem sido um livro que encaixa com as minhas mais recentes fases de amadurecimento. Ademais, transformou-se num grande aliado. Não só quanto a questões tão simples como tratar do meu cabelo natural, como em relação à importância de nos impormos, quando nos rebaixam. Mesmo que inconscientemente. A educação está ao alcance de qualquer um que se importe com o próximo.

Lá por eu nunca ter vivido determinada situação, isso não me pode impedir de querer entender os restantes pontos de vista. Isso não só me enriquecerá, como me ajudará a criar bons juízos de valor e adaptar os meus comportamentos. Por conseguinte, poderei contribuir para a harmonia das minhas relações, sendo elas ou não próximas.

Enfim. Não sei quando terminarei este livro. Visto que só iniciarei uma nova leitura quando esta terminar, pretendo não procrastinar. Seja como for, acredito que esta experiência jamais deixará de ser enriquecedora. E que bom é, nesse sentido, me começar a identificar com várias coisas!

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