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RETRO'18 O MÊS DE FEVEREIRO

1 de Março, 2018
Vamos pretender de que não houve desilusões, possíveis ressentimentos e noites que presenciaram os maiores devaneios em forma de insónia. Uma insónia que suga energias, liberta lágrimas e nos faz cogitar até à última gota de sangue existente no cérebro. Vamos, por um momento, evitar recordar o facto de as aulas terem começado, roubando território à terapia das férias, plantando um certo rancor no coração de alguns alunos e levando outros a abandonarem a cama, às cinco da manhã. Excluindo todas estas partes e mais algumas, posso determinar que Fevereiro foi um mês que passou. Não conquistei nada por aí além, cingi-me ao funcionamento vital em modo piloto automático, fiz o que tinha a fazer, pois, tinha de ser feito. Deixei-me levar pela habilidade de fechar certas portas na minha mente, completando o ciclo com as janelas meio abertas, o suficiente para permitir o arejar do espaço. Não tenho grandes coisas a dizer, nem promessas a ditar. 
Fevereiro custou menos a passar porque fui capaz de acordar todos os dias de saúde, junto daqueles que amo, podendo ler e ver conteúdo do meu interesse. O livro devolveu-me o à vontade para me apaixonar por eles e a série apoiou-me nas horas vagas e não vagas. Fiz o suficiente para não permanecer parada, na certeza de que, mais cedo ou mais tarde, renascerei com um outro ar, uma outra glória. Fevereiro foi o meu companheiro no estado moribundo e cinzento, pincelando de sol e odores bons os dias em que, também eu, me sentia assim. Não me recordo de alguma vez ter enfrentado o segundo mês com esta disposição, mas dizem de que existe uma primeira vez para tudo, não é verdade?
Sei que, para quem tem o hábito de palrar através de quinhentos parágrafos, ando demasiado calada, confessando o suficiente, seja para quem for. Para quem não me conhece bem, e mesmo aqueles que partilham muitas horas ao meu lado, este é o meu estado natural: o de dedicar mais tempo à observação, ao invés de a relatar pelos cotovelos. É certo de que remo contra a maré de cada vez que crio histórias – escritas ou não -, de cada vez que estou com os amigos, ou mesmo quando deambulo pela casa, com um acesso de cantoria infernal. Falar não é a minha praia e Fevereiro foi o mês que presenciou este meu estado natural com a maior sinceridade de que fui capaz. Nunca me apetece falar, sinceramente, apesar de gostar de o fazer, quando o faço. De todos os textos que surgirão pelo blogue, este parece-me o mais apropriado para alojar o que direi. 
Pensei muito, talvez mais pelas vezes em que me manifestei. Deixei-me corroer pela minha imaginação fértil, percorrendo zonas que me afetam de maneira brutal. Considerei muitas coisas, uma delas deixar de escrever. De verdade. Uma vez, disseram-me que desistir de algo implica que já não nos faça falta, e ao longo destes vinte e oito dias, somando aos de Janeiro, eu encarei todo o meu trabalho como um total falhanço, pese embora a quantidade de lances que eu já subi, à pala dele. Continuo sem saber do que se trata, mas cheguei a um ponto em que realmente já não sei o que é que faço bem ou mal, por muita qualidade que tenha. Parece que, aos poucos, ando a perder a confiança e a garra, mesmo que elas ainda aqui estejam, mas adormecidas, quem sabe, a hibernar.
Parte de mim diz que sim, que eu devo mandar tudo pelos ares e ver no que dá, mas a parte que vos escreve não permite isso. Talvez eu precise de falar mais, partilhar mais, tentar entender os meus conflitos e resolvê-los, ao invés de me sentar e ficar a observá-los a fazerem porcaria. Preciso de me impor, deixar-me de tretas e sacudir a poeira para bem longe… Sei lá, apenas agir e evitar que a queda aconteça. Porque, honestamente, sinto que algo me destruiu, sem deixar qualquer recado em cima da mesa. E eu quero entender os motivos de tamanha inércia, conversar com ela e aprender a partilhar o chá das cinco. Estou saturada, contudo, não o suficiente para ceder aos suplícios de um coração magoado e uma mente cansada. Há muita coisa à qual a minha curiosidade quer deitar as mãos e eu não a quero desiludir. Nem a ela, e muito menos a mim mesma. E considerei importante desabafar tudo isto, pois, Fevereiro foi uma dolorosa extensão do que se passou em Janeiro e eu não quero que o Universo julgue que eu desisti dele. Porque, até agora, ele não desistiu de mim.
Não quero exigir nada de Março, nem de Abril, nem de que qualquer outro mês do ano. De tanto o fazer no passado, aprendi que planificar se deve cingir àquilo que estudo, e nada mais. A vida tem de saber a inédito e não a uma correspondência de expectativas. Talvez eu não esteja magoada com as que criei, mas sim a destruí-las, livrando-me da ansiedade que me impede de saber esperar, seja pelo que for. Comecei a jornada a correr e parar, de rompante, apenas me danificou os músculos, obrigando-me a repousar. E apesar de tudo, tem-me feito bem descansar, por muito contraditório que seja sentir-me revoltada e, no momento a seguir, dedicar-me à manifestação de outras coisas. Acima das derrotas, Fevereiro foi um belo companheiro nesta batalha e eu o agradeço por isso, pois, foi por isso que descobri o que realmente quero fazer da vida. E levá-la desta maneira não faz parte dos meus planos.