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Dos doze aos dezanove e um caderno que os separa

19 de Janeiro, 2018
Aos doze, os sentimentos obrigaram-me a fixar-me na cozinha, sentada à janela, de papel e caneta em punho. Aos dezanove, numa sólida e produtiva quinta-feira, fiz o mesmo, mas sem qualquer propósito em especial. Simplesmente entrei no quarto, numa espera pela água quente para fazer o chá, fitei uma das minhas estantes e uma estrondosa vontade de escrever assomou-me. Considerei expor as minhas ideias pelo computador, mas uma rápida análise chacoalhou-me e me fez aperceber de que isso implicaria perder uma grande percentagem da vontade e esvair a mente, sem pedir por isso. Foi aí que logo considerei fazer jus aos velhos tempos e registar tudo à mão…. 
Aos doze, aconteceu-me o mesmo, porventura, em excesso. Guardo, até hoje e de maneira organizada, todos os cadernos que viveram através de mim e que são testemunhas da minha dedicação e perseverança. Dedicava grande parte do tempo a sintetizar os meus sentimentos, percorrendo e construindo poemas, todos eles interligados, na esperança de em algum dia mostrá-los ao mundo. Sinceramente, já não considero tal coisa possível, mas sorrio de cada vez que me recordo do entusiasmo que era preencher cada canto de uma folha com a minha ingenuidade. Feliz ou infelizmente, acabei por crescer. 
Para além dos poemas, foram nos diversos cadernos que aqui tenho que criei histórias de amor, tragédias, mistério e tanto mais, transferindo-os para uma pasta que, até hoje, me sussurram a prestar-lhes mais atenção. Houve um tempo em que me coloquei a reescrever uma das minhas histórias e, até hoje, peco por não trabalhar ainda mais por ela. Sabendo que a minha vontade é grande, alimento a esperança de não ser tarde de mais para o fazer! Tenho pena pelo fato de ter abandonado a escrita à mão livre, em abono de uma era mais fácil e rápida. Existem inúmeras vantagens nesta última, porém, articular as ideias com a caneta é tão mais pessoal e fiel, visto que somos mais lentos a escrever, o que nos obriga a lutar por um pensamento que não queremos que escorregue e suma pela horizonte… 
É por demais tentador querer despachar tudo à primeira, todavia, é tão mais aliciante quebrar as usuais regras e experimentar rotas novas! Acomodei-me nos braços da rapidez, deixando a minha essência à mercê do desconhecido, e arrependo-me disso, principalmente pelo facto de me reconhecer prisioneira de uma inércia que me intoxica, que me deixa mal, que me convence a optar por outras coisas que não escrever. Contudo, estou disposta a mudar, a batalhar, a tentar, a falhar e a tentar novamente! Só há de me custar os calos nos dedos porque, de resto, não sei que outro sacrifício terá a sua benesse, nesta trama.