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Negro como o breu, ultrapassando a cada dia

18 de Janeiro, 2018
Hoje, entrei na casa-de-banho às escuras, para cerrar os estores. Devem-se estar a questionar onde é que reside a maldade ou espanto, mas a verdade é que ainda tenho medo do escuro… Ou, pelo menos, do que é que poderá acontecer nas minhas costas, enquanto me tento habituar ao breu, ultrapassando-o. Não sei discernir em que ponto espaço-temporal é que isto se desenvolveu, mas existe algo de particularmente assustador no ato de fechar os olhos, quando temos a consciência de que não existe luz ao redor. Ter optado por não ligá-la, assim que me coloquei por debaixo do vão que me conectou à casa-de-banho, foi um pequeno detalhe que me fez concluir que, aos poucos, me estou a desembaraçar disto.
Há dias, em particular, em que o sono não desce devido a isso. Poderia chegar a ser vergonhoso partilhar esta informação, sabendo-me a chegar aos vinte… Honestamente, pouco me interessa se estivesse prestes a apagar cinquenta velas e, ainda assim, amedrontada pelas consequências que esse gesto acarretaria… Tenho receio do escuro, sim, ou pelo menos já tive mais. O segredo, acho, foi ter sido capaz de conviver com a minha própria existência, quando na altura carecia de um propósito… Já ultrapassei muitas coisas, mas acho que para esta, ainda terei muita poeira para retirar dos olhos e muitos corredores para abraçar na escuridão.
Sinto como se a miúda que fui ainda se agarrasse à minha cintura, de cada vez que a luz se vai, a meio da noite. Juro que faço de tudo para a acalmar, contando-lhe histórias, mas parece que lhe ando a passar as informações errada. Talvez deva mudar os meus métodos, fazê-la entender de que não se passa nada na escuridão, somente a nossa imaginação a brincar connosco. Talvez cheguemos a algum consenso, contudo, pelo sim e pelo não, farei para que continue a ser capaz de entrar num outro compartimento às escuras. Talvez assim, resulte melhor…