AL DENTE CRÓNICAS PESSOAL SAÚDE MENTAL

Sair do banho-maria em direção ao pôr do sol

30 de Junho, 2022

Recordo-me de, em miúda, passar muito do meu tempo em torno da minha tia com um desejo de desvendar a magia por detrás das suas receitas. De salgados, a memória remonta sempre para a lasanha. Se este é um dos meus pratos favoritos, devo-o à rotina que era comê-la quase sempre que a visitava, não só como resposta aos meus pedidos, como por uma consideração que ela tinha em relação ao meu favoritismo. Quanto aos doces…

nunca me saíram da cabeça aquelas tardes dispensadas a confecionar biscoitos de manteiga cuja receita mantenho até hoje anotada num dos meus muitos cadernos!

Não pratico esta receita há imenso tempo, porém, o que sempre ficou foi o bicho da culinária. Dado a minha rotina, fazia imenso tempo que não me encapsulava na cozinha, sem a mente a mil devido a preocupações. Estive dois dias desde que comprei os ingredientes para elaborar bolachas de linhaça que, no final, foram ao encontro do que esperava. A primeira fornada ficou muito melhor, mas a sensação de descontração superou como desfecho do dia.

Dei-me conta do quão ansiosa fico para que tudo o que saia do forno arrefeça para eu poder comer. Dei-me conta do quão revelador da minha calma é expor-me ao sol de final de tarde. Apercebi-me de que sou mesmo feliz a mexer com comida, sobretudo agora que já não frito tanto com ela – e este jogo de palavras, han? -. A minha relação com a mesma nunca foi boa.

Dediquei anos a contornar esta verdade, com receio de que se parecesse com outra coisa.

Não sei, talvez uma doença. Contudo, e sem querer entrar em terrenos que não domino nem acerca dos quais quero exagerar, fugir desta realidade fez-me muito mal. Ainda faz, só que como disse, já não tanto. Se cozinhar já era prazeroso, agora tem-se tornado numa manifestação de desejos que nem sabia que existiam.

É pela cozinha que alimento cenários que espero um dia viver, é no meio das minhas plantas que tenho acesso a recordações que nunca julguei que assim o fossem… Ainda me lembro de cenas que já deveriam estar arquivadas… Danço enquanto refogo os ingredientes base dos pratos que me são conhecidos ou que vou inventando.

Desbloqueio ideias, vontades, sorrisos quando a fumaça traz ao de cima odores secretos de determinadas mistelas. Não há que enganar, para mim, cozinhar é uma prática de amor. E faz algum tempo que não amo assim. Tenho estado distraída com temperos que não se enquadram comigo. Tenho-me deixado levar por temperaturas às quais não me adapto…

E para que os sabores façam sentido, o amor tem de estar presente. Por mim, pelo que faço… Amo quando cozinho e sei-o pela celebração do meu paladar, pelo piscar de olhos dos que degustam o que faço, pelos pedidos incessantes apegados ao passado. Se é assim que amo, o que tenho feito eu em banho-maria?

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