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ABRI O MEU DIÁRIO E DISSE… #1

13 de Agosto, 2019
É demasiado fácil, perante um confronto, afirmarmos de que atualmente se tornou complicado em arranjar alguém em quem confiarmos a pessoa que somos. Dispensamos demasiado de nós em atitudes e gestos que, do nosso ponto de vista, carregam uma inocência e congruência com o nosso espírito, quando na verdade, parte do que depositamos no mundo há muito que estava atravessado na garganta dos demais. Não é por mal quando cumprimos com o papel de nós mesmos, na íntegra. Não é por mal quando construímos uma expectativa tão grande acerca da apreciação que pretendemos receber, ao ponto de sermos fáceis de quebrar, manipular e maltratar. 
Sermos nós mesmos, tomarmos as rédeas desse papel com um engenho exemplar, iluminarmos a nossa performance neste mundo que se consegue matizar de maneiras tão cinzentas… Nada disso deveria ser alvo de julgamento, um pretexto para nos amedrontarem pelos cantos das paredes e nos obrigarem quase a que nos dispamos da nossa personalidade, as lágrimas a se nos escorrerem pelo rosto fora, acompanhadas de um conjunto de soluços sôfregos e sofridos. Começamos a suar frio perante qualquer demonstração de afeto, responsabilidade, debate, assumimos a personalidade daquele que passa a temer falhar ou desagradar o seu estado de nudez do carácter que o obrigaram a adotar, no breu à luz do dia. 
Vamos acumulando, de um modo consciente diversificado, parcelas de uma rejeição e que, eventualmente, se transformam numa muralha cuja pretensão é a de nos devolver ao nosso estado de apatia e letargia existencial, na sua forma mais pura.  Erramos, principalmente, quando permitimos baixar a guarda quanto aos nossos valores. Erramos, sem um pingo de consciência, quando damos aso a esse espetáculo exorcista da nossa individualidade, somente para correspondermos com algo ou a alguém. Erramos nos momentos em que acenamos perante argumentos que, ao longo do percurso até nos chegarem aos ouvidos ou ao olhar, se mascaram de críticas ditas construtivas ou com intenções de lucidez. 
Podamos de nós infinitas possibilidades de renovação e crescimento íntimo, devido às exigências que almejam pescar de um poço outrora abundante nas suas expressões de peculiaridade infinita e incomparável. Subtemo-nos, sim, a atos de puro egoísmo, incompreensão e pouca empatia. Ali, sem plano de fundo para o futuro, o olhar se equilibra com a gélida insatisfação de não termos errado ainda mais, desejosos por aprender. Não se trata, superficialmente, do medo de falhar, de partir a cabeça pelas atrações mais suculentas da vida; trata-se de simplesmente deixar ir. Deixar correr, deixar arrastar com a devida atenção, pelo invólucro do tempo. Seja lá o que isso for.