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SOCIEDADE \ Não pedi para nascer assim, mas também não me imagino de outra forma

11 de Setembro, 2016
Hoje, ao celebrarmos em família o facto de eu ter sido colocada na universidade e curso que queria, alguns dos membros do seio familiar me estavam a aconselhar de que agora é que era; que a universidade era puxada e que exigia muito trabalho; que indo para o curso que vou, terei alguns obstáculos, nomeadamente a meteorologia, a quantidade de trabalhos que terei de elaborar, o tempo e o espaço que poderei vir a perder, etc., etc..
Numa dessas sentenças, o marido da minha tia, que afirma ter amigos que tiraram Arquitetura e que se esforçaram bastante, referiu que eu também poderia vir a ter alguns inconvenientes por ser negra. Apesar de ter ficado um pouco desligada da conversa que me estavam a dirigir, automaticamente o meu cérebro acordou e colocou-se a pensar. Eu não digo que não poderei vir a ser vítima no meio universitário e profissional por ser negra, mas será mesmo que isso me poderá vir a prejudicar a sério, ou mesmo afastar-me dos meus objetivos, na medida em que me afugente do meio social?
Sim, eu já fui, sou e hei de continuar a ser vítima de racismo e discriminação enquanto estiver viva. Mesmo que as ações que vistam esse propósito sejam mínimas, são, de facto, coisas que me chateiam. Seja porque no transporte público alguém deixou de se sentar ao pé de mim por ser negra, ou mesmo quando se sentam, e me lançam um olhar de desconfiança… Seja porque me afirmam que certo autocarro já passou, sendo que este vai para uma zona onde a população predominante é negra; ou mesmo quando duvidam que eu seja capaz de possuir muitas das qualidades que supostamente pertencem aos da raça branca. Eu sei que isto e muito mais poderá vir a acontecer não só no dia-a-dia, como também na universidade e, posteriormente, no trabalho.


Muitas vezes, na escola, sei que me apontaram o dedo por julgarem que eu seria como os outros da minha etnia, simplesmente porque o meu corpo, imparcialmente, decidiu produzir uma quantidade razoável de melanina para me me proteger da exposição solar que, nos tempos dos meus antepassados, foi um meio que a natureza decidiu adotar para que aquele povo não se extinguisse, devido às condições atmosféricas. Quem percebe estes fatores, claro que se torna imune a qualquer tipo de discriminação e de cometer esse ato; porém, quem se sujeita a opiniões “populares”, quem é, de facto, ignorante, e quem faz por não entender, continuará sempre a tecer julgamentos acerca de mim, dos outros ou mesmo de vocês.
Por ser uma pessoa que se cultiva, que faz por aprender, que percebe minimamente destas circunstâncias, não me faz muita comichão se alguém pensa que sou gatuna, ou cheiro a catinga, ou mesmo se vivo num bairro social sem condições, adotando a criminalidade como um desporto. Sei bem de onde venho (até onde poderei vir a saber), sei bem quem me criou, sei perfeitamente quais os valores que me passaram e me ensinaram, sei e estou consciente de que tenho tudo para vencer na vida, não obstante os obstáculos que me tornam vítima da própria vida. Sei que, felizmente, não vivo num bairro social de condições precárias; sei que não sou gatuna e que nunca roubei; sei que não cheiro a catinga; e sei perfeitamente que, apesar de ser negra, tenho pessoas que gostam realmente de mim.
Em inúmeras ocasiões, quando criei o blogue, tive sim receio que as pessoas deixassem de me ler por ser negra. É um medo compreensível, tendo em conta que o racismo é algo que levará anos e milénios e universos para cessar; mas a verdade é que à medida que o tempo foi passando, esse receio foi-se amenizando. As visitas aumentam cada vez mais; a cada dia, ou de dias a dias, os seguidores acumulam-se; recebo mil e um elogios por parte de outros bloggers e leitores, e isso só me faz abrir os olhos para uma porção da realidade que se deveria expandir. As pessoas deveriam aprender a deixar de lado essa nojeira que sentem por um outro ser diferente… A sociedade deveria ser mais tolerante no que toca a certos aspetos.Diariamente, vejo negros, ciganos, brasileiros, entre outros, a serem julgados, quando na verdade não fazem absolutamente nada. Claro, não estou a colocar para debaixo do tapete o facto de existir sim criminalidade destas para outras pessoas, mas os brancos também o fazem. Os brancos também são pessoas que podem cheirar a catinga; viverem num bairro social e cometerem crimes. Nem os pretos nem os brancos são um ídolo a seguir. E eu não peço para que o mundo tenha um modelo formulado que cada um de nós deva adotar na sua vida. Eu simplesmente gostaria de chegar aos cinquenta/sessenta anos e sentir-me livre de poder entrar num local, ou saber que poderei vir a ser promovida, sem ter a minha cor a prejudicar-me.

Eu gosto de ser negra. Acho que é uma tonalidade que me cai bem, e não me imaginaria de uma outra forma. Tenho orgulho da minha família e gabo-me de tê-la. Porém, sei que a quilómetros de distância, uma outra negra não pensa assim. Sei que ela sente ódio de si mesma por ter nascido como nasceu, desprezando aqueles que a amaram, educaram e fizeram dela a pessoa que é. É triste, de facto, mas é algo que pode ser transformado aos poucos… A aceitação tem de começar de nós mesmos, para que na globalidade, as coisas funcionem como deveriam de ser. E se, acontecer eu sofrer penalizações na universidade por ser negra, terei como resposta uma superação que nem mesmo o inimigo imaginaria que eu seria capaz de ter.