CRÓNICAS PESSOAL

Só Queria Poder Abraçar e Matar as Saudades do Mundo

24 de Março, 2021

Talvez não seja a altura certa para isto. Ou, pelo contrário, é a altura ideal. Consoante o tempo se dilui, vou sentindo cada vez mais saudades da liberdade que costumava ter. Falo de uma liberdade tão simples quanto abraçar e não sentir medo, culpa ou uma nesga de desconforto. Estou, portanto, a atravessar um momento intenso de nostalgia… Se venho tarde?

Diria que nunca é tarde para se recordar.
Para se recordar dos planos não tecidos, mas que, ainda assim, se cumpriam.

Dos jogos de basquete sem compromissos, no campo do parque. Não que não o possa fazer, contudo, a aglomeração de pessoas tornou-se num fator estranho. Inegavelmente bizarro. Suspiro, igualmente, pelos encontros numa esplanada e que significavam gelados, gargalhadas, chás… Tudo isto antes ou após um passeio pela cidade. Falando em cidades, soubesse o que agora sei, e teria deambulado muito mais pelas ruas de Lisboa.

Sempre a negligenciei, no entanto, percorre-me esta saudade pelos cantinhos que ainda não descobri. Ainda há dias, o motor a ressoar pelo silêncio de final de tarde, vieram ao de cima memórias relacionadas com as conduções noturnas. Daquelas que se prosseguiam após uma saída com amigos e que sinalizavam uma degustação da brisa morna da noite, tal como do silêncio cortado pelo carro.

Às vezes, piscam-se-me outras sensações: a curiosidade pelos mistérios, o medo de que algo pudesse acontecer, os cálculos mentais caso não encontrasse lugar àquela hora… E a sensação de alívio, de quando vestia o pijama perto das 5h da manhã, sabendo que não faria nada nas horas seguintes.

Sinto falta das livrarias. Do odor dos livros novos. De toda aquela atmosfera acolhedora e de deixar a desejar…

Mesmo que saísse das livrarias de mãos a abanar, passear dentro delas fazia parte do roteiro. Sobretudo quando me encontrava no Chiado. Oh, como gostaria de me perder numa multidão de apreciadores de música, ao longo de um concerto. Daria tudo para conhecer novos artistas e consolidar a apreciação que dedico a tantos mais.

Ademais, sinto-me órfã das viagens de avião. De toda a corrente elétrica vinculada à compra dos bilhetes, à preparação das malas, ao percurso até ao aeroporto. Nunca esquecer do fascínio pelas novas fachadas, pelas tonalidades que se distinguem das do quotidiano, dos idiomas e da diversidade…

Sim, tenho muitas saudades destas atividades. Todavia, guardo a esperança de que, eventualmente, as poderei tornar a viver. Eis uma das minhas âncoras… A crença de que, mesmo em pausa, o mundo aguardou e reservou o melhor de si para mim. Sim, é só ter paciência!