FIM DE LICENCIATURA, ANO SABÁTICO E MUDANÇA DE RUMO

Eis um tema de conversa que eu, ininterruptamente, fiz por evitar abordar no blogue: a minha vida académica. Quando comecei a acompanhar blogues mais regularmente, um dos aspetos na vida d@s bloggers que acompanhava e que mais me fascinava era a sua vida académica. Na altura, no secundário, eu tive a sorte de me ter cruzado com pessoas que tinham o cuidado de transmitir a positividade envolvente das suas vidas na universidade, tal como os desafios inerentes a essa experiência, o que plantou em mim uma vontade maior de investir no mesmo. Acontece que, apenas inicialmente, é que o entusiasmo de partilhar acerca da minha vida por lá se fez sentir, se desvanecendo com alguma rispidez, pelo meu consciente.

Para além de me ter preocupado mais em experimentar toda a minha estadia pela faculdade, ao invés de a relatar, eu não quis tornar público um facto que, a mim, me estava a importunar: o facto de mesmo tendo sido eu a escolher o meu curso, eu não me estava a sentir no sítio certo. Tenho a pontuar que tive a oportunidade de conhecer e fazer amizades com pessoas espetaculares e cujo grupo ainda se mantém, até então; e que o meu desconforto em nada estava relacionado com as pessoas com quem me fui cruzando. Três anos na faculdade e, perante os desafios, tive de me ir moldando e conhecendo, para não me perder nas minhas crises internas – e que não foram poucas -. Como relatar que, nunca na vida, havia chorado tanto quanto chorei neste período de tempo, com a ideia um tanto disfuncional de que nunca mais sairia dali

Nos primeiros dois anos, eu senti-me uma intrusa naquele meio, construindo a leve sensação de que eu jamais teria um instante que fosse para mudar de rumo e tentar novamente, num outro lugar. Nos primeiros dois anos da licenciatura, eu perdi o total interesse em aprender e em estudar, tanto que me sentia pobre intelectualmente, de tão pouco estimulada. Eu quis acreditar que tal se havia dado pela dificuldade do curso, no entanto, estando onde estou atualmente, e tendo em conta a mudança drástica curricular que senti no terceiro ano e que adorei explorar, o problema estava, sem sombra de dúvidas, em mim, querendo dizer que, pela primeira vez, eu me havia colocado num trilho do qual desgostei, e a minha maior dificuldade foi admitir que, talvez, eu tivesse “errado” e que estaria mais do que na altura de me revolucionar e retomar as rédeas da minha vida!

Os efeitos colaterais ainda se fazem sentir. Fico com um certo aperto no peito de cada vez que me recordo das sensações às quais me submetia, por não querer ir a mais um dia de aulas. Nas minhas pausas, eu tentava encontrar todo o tipo de soluções: pesquisava por outros cursos, tentava compreender como era a dinâmica noutras faculdades, trocava ideias com os meus amigos, no entanto, na verdade, eu nunca dispunha de tempo e espaço suficiente para o fazer, dado que qualquer decisão que eu tomasse, teria de ser a correr e eu não queria arriscar errar, novamente. E foi assim que, gradualmente, fui considerando dedicar-me a um ano sabático e, quiçá, sair da minha zona de conforto que nada mais era do que a minha rotina.

FOTOGRAFIA: @MILLESPHOTOS

Essa possibilidade, mais do que as outras, e tendo em conta as circunstâncias da altura, provocou-me um excesso de ansiedade que me fez perder o controlo da minha própria cabeça. Ao falar do assunto, eu só sabia chorar. Eu não conseguia projetar-me para o futuro, nem tão pouco manter a esperança de que tudo acabaria por se amenizar. Nunca me esquecerei do dia em que contei aos meus pais que queria terminar a licenciatura e tirar um ano para mim, para a minha cabeça. Nunca me esquecerei do quão doloroso foi conversar com o tempo e torná-lo num parceiro desta batalha. Jamais me quererei despojar da sensação que foi apresentar o meu último projeto da licenciatura e ter ficado a saber de que o mesmo tinha sido aprovado, mesmo que tivesse sido com uma nota que não estava, de todo, de acordo com os meus objetivos. Passei e foi isso o que me trouxe uma leve sensação de liberdade.

Naquele um de julho de dois mil e dezanove, deu-se o início de um novo ciclo, de uma bela metamorfose e da qual tenho vindo a ser protagonista. De momento, estou a trabalhar numa área que, de modo algum, me atravessaria pela cabeça, mas cuja surpresa do desconhecido me tem vindo a resgatar e a impressionar. Neste primeiro trimestre de trabalho, já tive a oportunidade de conhecer pessoas e histórias que me têm vindo a ensinar a relativizar, a priorizar e, acima de tudo, a cuidar de mim com mais afinco e dedicação, nunca esquecendo as atividades que me preenchem e enlouquecem docemente. Óbvio que não me cabe a função de detalhar tantas outras situações que me trouxeram aqui, contudo, estava mais do que na hora de expulsar estes pensamentos que há muito marinam no meu ser e que, por vezes, me desconcentram dos meus afazeres.

Tenho vindo a sentir uma urgência em partilhar este desabafo, porque foram três anos de “silêncio” e muita mágoa, três anos a acumular muitas exigências internas e um tanto externas. Como já ouvi, uma vez, somos nós que muitas das vezes criamos as nossas barreiras e nada como começarmos a avaliar os porquês, derrubando-os. Quis aplicar-me perante as novas ideias que se me iam surgindo, mas, continuadamente, recuei por receio de não me conseguir esticar o suficiente e dar o melhor de mim. Daí este meu maior projeto, o blogue, ter sofrido imenso com a minha ausência. Tenho feito por aprender a deixar de amedrontar escrever acerca de determinados assuntos e o conteúdo que faço por consumir também me tem auxiliado nessa vertente. Como poderão vir a concluir, esta lagoa que sou ainda tem imenso para pescar do fundo, não obstante, respeitarei o meu tempo e, assim que encontrar novos tesouros, terei o cuidado de falar acerca deles.

Por enquanto, quero que esta minha nova fase de vida, estas novas mudanças, tenham o protagonismo que tão bem merecem, inclusive, serem faladas na nova versão do blogue! Em suma, não tenham medo de recuar. Não precisam de rejeitar a possibilidade de terem adotado o caminho menos correto para com a vossa essência, pois, há sempre uma solução… Basta que alimentemos esse ensejo e façamos com que os demais compreendam que as únicas pessoas que poderão decidir por nós somos nós mesmos. Atirarmo-nos às profundezas do oceano poderá ser assustador, mas à medida em que nos vamos habituando à temperatura da água, aos seres que lá habitam e às surpresas em cada canto inimaginável, damos por nós a nos moldarmos num ser aquático e surpreendente! Sejam mutáveis e verão que nada vos poderá demover de serem felizes! ♥

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