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.no title 01 \ chorar em Público

13 de Agosto, 2017
Público

É como receber um abraço de um velho amigo. Fazer correr a torrente, permitir que se forme uma corrente, e expressar através de ondas e odores salgados, aquilo que carregamos de mais pesado na alma. É fazer uma limpeza, adotar a conversa de que não nos banhamos duas vezes no mesmo rio, é permitir que uma fresta se abra para mais tarde poder ser cosida. Não é, de todo, assim tão mau. Colocam-nos na mente a ideia de que chorar em público é das demonstrações mais fracas face à nossa existência, como se, através do nosso sofrimento, plantássemos nos quatro cantos do mundo, um sofrimento ainda maior. Contudo, não é bem assim.
Há quem se vanglorie de que raramente chora, rogando aos sete ventos de que vive numa felicidade eterna, qual fruto proibido mais desejado, mas o que não contam ao mundo e a si mesmos, são as gotas que derramam na companhia da almofada amiga, enrolados num outro corpo que se denomina lençol, enquanto a luz lunar banha aquele espetáculo com pigmentos que escondem a lagoa que nasce do aglomerado dos nós na garganta formados ao longo do dia, das palavras que ficam por dizer, e pelas ações que decorridas em frente do olhar, salpicam nele a necessidade de se fechar e despejar os dissabores ali representados.
Depois surgem os semblantes carregados, as narinas prestes a explodir, o peito que fecha em si um coração turbinado, esse que tanto esquadrinha por uma oportunidade para governar as emoções em condições. São os pés entorpecidos, que se arrastam por ali fora, na esperança de fazerem fugir o corpo do emaranhado de ideias estapafúrdias que a sociedade alimenta, com base numa justificação errónea acerca de chorar em público. Porque é inadmissível alguém daquela idade mostrar tamanha languidez, tamanha sensibilidade para com as coisas. Não lhe ensinaram que chorar em público é feio? – e é exatamente por isto que não há como acreditar que o ser humano habite em si um pingo do sentimento de empatia.