MÚSICA PRESS PLAY SUGESTÃO

PRESS PLAY \\ “DEEPAK LOOPER”, PAPILLON (2018)

15 de Novembro, 2019

Raramente falo de música. Raramente o faço porque eu não sei falar de música. Na verdade, eu só a sei sentir e, nas vezes em que me esforço para descrever cada sensação, falho redondamente para com a realidade. Não existem palavras que cheguem e das quais poderia fazer uso, de maneira a pormenorizar todos os efeitos secundários de uma boa sessão de música, principalmente, quando se tratam de descobertas, seja pelo trilho da solitude, ou acompanhada de alguém especial.

Só me mostro um tanto intrigada com esta questão nos momentos em que cogito, quase todos os dias, nas consequências de uma determinada viagem musical e acerca da qual nunca consegui conversar. Tenho, nesta mente emaranhada, um leque de nomes que poderia enumerar, no entanto, é com “Deepak Looper” na ponta dos dedos que eu me estou a deixar expressar, ou, pelo menos, a tentar fazê-lo. Foi-me apresentado por um conhecido e, até aos dias de hoje, soa-me a algo de novo e extraordinário.

É como se, em cada investida, fosse uma nova vez e eu redescobrisse nas margens de cada verso, uma variante minha e a encarasse, como se a tivesse perdido, algures. Apesar de parecer algo mau, na verdade não o é: encontrar-me a relatar a minha conexão com um álbum de rap português é inexplicável, tendo em conta que todo este mundo – o do rap tuga – é uma autêntica novidade para mim. Dentre uma vastidão de artistas, Slow J é o que melhor me compreende, de cada vez em que o seu tom de voz me saúda.

Papillon foi conquistando esse mesmo terreno, embora ainda não me tenha colocado a explorar toda a sua discografia. “Deepak Looper” emana poder, emana sinceridade, invoca o que há de mais desafiador em nós e no nosso discurso. Semelhante ao “To Pimp a Butterfly”, de Kendrick Lamar, Papillon utiliza a sua realidade para criar uma narrativa musical muito crua, honesta, com o apoio de uma sonoridade que se deixa mesclar com as letras, gerando um resultado do qual nos tornamos carentes, quando não o temos por perto.

De modo frontal, poético e subtil, ele descreve a sua história, os seus sentimentos e ainda nos aconselha, nas entrelinhas, a sermos um pouco mais de nós mesmos. A ideia fundamental é de que a vida é uma escola e que existe sempre maneira de aprendermos com ela, seja através dos erros, como pela prática daquilo que mais amamos, ou mesmo pela reconciliação com os nossos.

Não existem palavras suficientes para descrever e incentivar à exploração deste pequeno tesouro e que me surpreende, a cada dia, no entanto, nada como deixar aqui uma pista para uma possível corrente de partilhas e apreciações, promovendo artistas que se destacam pela sua singularidade e coragem!… Coragem em realizar o que amam de modo tão exemplar, apaixonado e apaixonante! Uma ode aos corações que não amedrotam as metamorfoses da vida!